O não-Carnaval

crédito: barradatijuca.com.br

De cara, já peço desculpas pelo post pessoal. Adoraria dar dicas culturais, explorar novamente as infinitas diferenças e afinidades entre o Brasil e a França, contar sobre a mais nova cachaça que provamos… Mas, infelizmente, há um sufoco no meu peito, um nó na minha garganta que precisa ser expressado antes que me sufoque. Ele se chama o não-Carnaval.

Nascida e criada no Rio de Janeiro, o Carnaval sempre foi pra mim mais uma maneira de medir o ano. Quando chega o Carnaval, também chega aquela tão necessária semana de férias após os 2 meses de férias de fim de ano. Sempre foi boa notícia. Similarmente, quando chega a Páscoa é época de engordar pro inverno não-rigoroso, e festas juninas avisam que meu aniversário vem por aí.

O que quero dizer é que o Carnaval nunca foi algo demais na minha vida. Digamos assim: nunca o odiei, pelo contrário, mas não toparia ir pro Cordão do Bola Preta com 2,5 milhões de pessoas. Pelo menos era assim que eu pensava.

Após o terceiro Carnaval perdido, as coisas começam a mudar. Fevereiro não é mais sinônimo de férias-pós-férias com praia e sol e samba (como há de ser, quer queira, quer não). Fevereiro é sinônimo de frio suportável, quando começam a aparecer os ovos do Kinder Ovo (e só) nas prateleiras do mercado. Quando é a Páscoa afinal? Eu nunca soube, mas as Lojas Americanas sempre me davam uma dica. Ultimamente tenho perdido totalmente a noção do tempo.

O não-Carnaval é uma época sombria para o carioca no exterior. Não digo para todos, pois muitos adoram se gabar do quanto detestam o calor-humano-com-budum de Ipanema durante essas fatídicas semanas do fim de fevereiro. Não posso dizer que curto um budum, mas não diria não ao calor humano. Ao samba. E mesmo às bundas rebolantes que sempre me fizeram rir, seja de vergonha alheia, seja de admiração (como essas mulheres conseguem carregar tanto peso na lombar?). Há um tempo que não vejo nem a minha.

Para aqueles que reclamam da semana inútil para a economia do país, eu digo que Paris pára em agosto por razão nenhuma. Não há sequer a desculpa do Carnaval para o mês perdido. Portanto estamos no lucro, e não se fala mais nisso.

Enfim, com o nó na garganta desatado, peço àqueles – cariocas de sangue e/ou alma- que estão no Rio para curtirem o Carnaval por mim. Nem que seja para medir o ano. Os cariocas do não-Carnaval agradecem.

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